Spain

O efeito dominó que ameaça a Espanha e a zona do euro

Opinion piece (Carta Maior)
19 June 2012

Em entrevista à Carta Maior, Simon Tilford, economista chefe do Centre for European Reform, defende a necessidade de uma massiva injeção fiscal na eurozona, sem a qual a Espanha terá que pedir um resgate este ano. E depois desse resgate, a bola da vez seria a Itália. A pergunta, diz Tilford, é se a eurozona está em condições de fazer isso. "Uma coisa é Grécia, Portugal ou Irlanda. Outra é a Espanha, que é a quarta economia da zona do euro". A reportagem é de Marcelo Justo, direto de Londres.
 

Londres - A eleição grega não trouxe o cenário apocalíptico que alguns analistas previam, mas a eurozona segue na corda bamba. Os críticos da política atual assinalam que sem uma rápida mudança de direção, haverá um inevitável efeito dominó no qual a queda de sucessivas pedras provocará a derrubada do edifício. A Carta Maior conversou com Simon Tilford, economista chefe do Centre for European Reform, que defende a necessidade de uma massiva injeção fiscal na eurozona, sem a qual a Espanha terá que pedir um resgate este ano.

Como prossegue este filme após a eleição grega?

A eleição grega não muda nada. Para que a Grécia sobreviva na eurozona necessita de transferências contínuas muito maiores do que recebem zonas empobrecidas nos Estados Unidos, Reino Unido ou Alemanha. Mesmo que o governo forme uma coalizão, não poderão cumprir os termos do acordo, pois eles são impossíveis de cumprir. A única coisa que fazem é ganhar tempo. A Alemanha insinuou uma certa flexibilização dos termos do acordo, mas a economia grega está em queda livre. O que ela precisa é de um programa de estabilização macroeconômica, com um forte estímulo fiscal e a única coisa que se discute é a liberação de alguns fundos estruturais para estimular a economia, nada realmente significativo. 

A dívida grega é insustentável, a interrupção de pagamentos está se tornando inevitável. É como ocorreu com a conversibilidade na Argentina. Os países da eurozona não tem controle algum sobre a moeda na qual estão se endividando e como os investidores duvidam de sua solvência, pedem altíssimas taxas de juros.

Isso já está ocorrendo na Espanha.

Exatamente. Se você compara a situação da Espanha e do Reino Unido pode ver que tem problemas similares. O estado das finanças públicas é praticamente o mesmo, mas a Espanha está pagando 7% por dívida de dez anos, enquanto que o Reino Unido só paga 1,5%. A diferença é que o Reino Unido está se endividando em uma moeda que controla e a Espanha não. E para uma economia que está em estado de contração, como a espanhola, pagar esta taxa de juros conduz à ruína. Além disso, o vínculo entre dívida soberana e os bancos está produzindo um circulo vicioso no qual a preocupação com uma alimenta a outra. É perfeitamente factível que o governo da Espanha necessite de um resgate este ano. A pergunta é se a eurozona está em condições de oferecê-lo. Uma coisa é Grécia, Portugal ou Irlanda. Outra é a Espanha, que é a quarta economia da zona do euro e tem duas vezes o tamanho desses três países juntos.

É evidente que o tempo é escasso, mas não parece que está política de estímulo econômico esteja sobre a mesa.

Não. Estamos nos aproximando de um ponto de tudo ou nada. Ou se fazem as reformas institucionais urgentes necessárias para mutualizar a dívida e proteger os bancos em nível europeu e não nacional, e se tem um Banco Central Europeu mais intervencionista que estimule o crescimento ou a situação vai piorar a cada semana. O problema não é só econômico. É político também, os governos precisam do respaldo de seus eleitores, algo impossível se não há uma luz no fim do túnel. E neste momento não há. As reformas estruturais que estão sendo implementadas podem ajudar no longo prazo para estimular a produtividade, mas isso é o longo prazo. No curto e médio prazo o problema é a demanda anêmica destes países. Sem esse programa, a Espanha está condenada a pedir um resgate.

Suponhamos que a Espanha peça um resgate. A linha de defesa do euro se desloca novamente. Primeiro foi a Grécia, depois vieram Irlanda e Portugal. O que ocorre com o euro depois de um resgate a Espanha?

Vem a Itália. E um dos problemas é que os países que participam dos resgates vão diminuindo. A Espanha não poderá participar de um resgate para a Itália e, por definição, a Itália não poderá contribuir com fundos para um resgate de si mesmo. De modo que o resgate a Itália teria que ser pago pela Alemanha, França, Bélgica, Holanda, Luxemburgo, Áustria e Finlândia. Isso significa que a França terá que garantir uma terça parte do resgate a Itália. A própria França, que não tem uma situação muito folgada, ficará na linha de tiro. Os resgates não são sustentáveis.

A crise está em seu terceiro ano desde que se manifestou na Grécia pela primeira vez. Como é que, em nível europeu, ninguém parece perceber esta lógica?

Há uma reação defensiva. E muita ideologia. O que é francamente estranho é que até os socialdemocratas estejam a favor de políticas de austeridade fiscal e reforma estrutural. Muitas das políticas que estão sendo aplicadas na Europa são similares as que o Tea Party defende nos Estados Unidos. O argumento central é que não importa o nível de contração sempre que se consiga equilibrar a economia. Mas é tudo ao contrário. O nível de contração importa precisamente por causa dos níveis da dívida. 

No caso da Espanha, não é o momento de cortar o gasto fiscal porque não há consumo doméstico, o desemprego é recorde, os salários reais estão caindo, as empresas não investem porque estão tratando de se desendividar e não há uma saída exportadora porque o resto da Europa está estagnado ou se contraindo. Isso está contraindo a economia, o que reduz as receitas com uma dívida que se mantém estável, com o que o peso dessa dívida é muito maior. A economia europeia tem que voltar a crescer. Não se pode deprimir uma economia para recuperar sua solvência.